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Métodos fónicos

Os métodos fónicos assentam na ideia de que é necessário que as crianças entendam que existem relações consistentes entre grafemas e fonemas (leitura) e entre fonemas e grafemas (escrita). A maioria dos estudos que compararam métodos de ensino mostraram que os métodos fónicos sistemáticos conduziram a progressos mais sólidos na leitura/escrita do que o ensino não sistemático ou do que o que não se baseava nos princípios fónicos.

1. Métodos fónicos

Os métodos fónicos de ensino da leitura e da escrita (de palavras) assentam na ideia de que, desde o início da aprendizagem, é necessário que as crianças entendam que existem relações consistentes entre grafemas e sons mínimos da fala, mais exatamente fonemas (leitura) e, na outra direção, entre fonemas e grafemas (escrita).

Essa aprendizagem é treinada em conjunto com exercícios de fusão de sons mínimos da fala (leitura; <fila>, /f/, /i/, /l/, /ɐ/ → /filɐ/) e de análise de sons maiores de fala tais como as sílabas (escrita; /vilɐ/ → /v/ - <v>, /i/ - <i>, /l/ - <l>, /ɐ/ - <a> → <vila>). E permite à criança, desde cedo e com poucos recursos, ler (decodificar) e escrever (codificar) palavras novas usando as regras de conversão aprendidas.

Os métodos fónicos focam-se no ensino do funcionamento do princípio alfabético. Uma vez que o código representa os sons mínimos da fala – fonemas, que são abstrações difíceis de trabalhar – através de símbolos arbitrários (grafemas), a aprendizagem deve ser conduzida passo a passo e, por isso, requer um plano de instrução explícita, estruturada e sistemática que deve ser monitorizado por quem ensina.

Existem essencialmente dois tipos de métodos fónicos: o sintético e o analítico.

O método fónico sintético caracteriza-se por ensinar às crianças, numa fase inicial, os sons associados aos grafemas isoladamente e, na leitura, a fusão/síntese da sequência desses sons para pronunciar a palavra em estudo; na escrita, a análise dos sons de uma palavra para poder escrevê-la. Posteriormente, são ensinadas estruturas mais complexas, como, por exemplo, <ci> e <ce> na leitura e sequências como /gi/ → <gui> na escrita.

O método fónico analítico ensina as crianças através da comparação de palavras que partilham um dado grafema e, por isso, também um dado fonema. Por exemplo, as crianças são expostas a, e aprendem a identificar, um pequeno conjunto de palavras que começam com a mesma letra (<vi>, <vez> e <voa>) e são ensinadas a reconhecer a letra que se repete e que tem o mesmo som. Não pronunciam sons isoladamente para depois os “combinar” na formação de uma palavra. Partem da palavra que já conhecem e aprendem a identificar os seus elementos.

Os métodos globais decorrem da perspetiva de que aprender a ler/escrever e aprender a falar são casos semelhantes de desenvolvimento da linguagem. Por isso, assentam na ideia de que a aprendizagem da leitura depende do reconhecimento de unidades com significado, frequentemente as palavras no contexto de uma frase. Relativamente à escrita, pensa-se que as crianças vão retendo a pouco e pouco, naturalmente, os padrões ortográficos das palavras a partir da exposição que têm à leitura e dos seus exercícios de tentativas sobre como a tarefa de escrever funciona. 

Nesta perspetiva, as crianças vão memorizando as palavras escritas como objetos visuais até que, incidentalmente, surja a necessidade de ensinar o nome/som de algum ou alguns dos seus elementos, que podem ser sílabas e, eventualmente, em alguns casos, as letras. As crianças são encorajadas a focar-se no significado e em fazer predições sobre a identificação de uma palavra baseadas no contexto e no conhecimento gráfico que já possam ter (normalmente, a primeira letra da palavra), usando ainda o conhecimento sintático que intuitivamente convocam para aquela tarefa. Quem ensina deve oferecer um ambiente rico, no qual ouvir, falar, ler e escrever são combinados para que o todo da experiência sustente a aprendizagem natural e global de cada palavra. 

Quando as crianças falham na identificação de uma palavra ou quando querem escrever para comunicar e não conseguem, descobrem que precisam de conhecer as relações entre letras e sons. 

Nessa altura, muitas vezes a seu pedido, são ensinadas sobre algumas correspondências. O ensino das correspondências entre letras e sons pode, portanto, ser uma das práticas usadas pelos métodos globais, mas a sua ocorrência é incidental, limitada e não sistemática. 

Existem algumas diferenças entre métodos globais. A principal prende-se com as práticas incluírem o estudo das palavras apresentadas isoladamente em listas ou, em vez disso, serem sempre apresentadas em contexto de frase ou texto. 


2. A importância dos métodos fónicos

Os métodos fónicos constituem a técnica que sustenta a aprendizagem do princípio alfabético. Por isso, envolvem a coocorrência de três tipos de aprendizagem que se reforçam reciprocamente: a das letras, a tomada de consciência dos fonemas e a das relações entre letras ou grupos de letras e fonemas (e, reciprocamente, entre estes e as letras ou grupos de letras). 

O exercício fónico, que é a aplicação destas aprendizagens à leitura e à escrita de palavras, envolve ainda a memória de trabalho, pois a decodificação e a codificação implicam também a capacidade das crianças para reterem a sequência das conversões que estão a realizar até que a palavra seja dita (leitura) ou escrita integralmente.

Os métodos globais envolvem sobretudo as capacidades de memória a longo prazo. Se a criança não tem informação sobre as relações entre letras e sons, para poder identificar palavras escritas, ou para escrever palavras, tem de adquirir um vocabulário que lhe permita associar formas gráficas a significados. Trata-se do chamado vocabulário visual, que é construído essencialmente com base em palavras específicas e não através de exemplares (tipos de palavras) das regras que são treinadas. 

Uma parte da aprendizagem da leitura/escrita também ocorre de forma implícita, através da capacidade das crianças para extraírem regularidades a partir da informação a que é exposta. Por exemplo, ler a vogal <a> em posição final de palavra sempre como /ɐ/ ou escrever maciçamente o fonema /u/ com a letra <o>, refletindo esses comportamentos a experiência mais frequente que as crianças têm quando lidam com cada uma dessas condições. 

Nos métodos fónicos esse tipo de aprendizagem é visto como complementar ao ensino explícito, enquanto nos métodos globais essa capacidade torna-se uma exigência determinante no processo. No entanto, esperar que o essencial da aprendizagem ocorra desse modo pode não ser realista.

Com efeito, as aprendizagens implícitas parecem ser facilitadas quando as crianças têm conhecimentos sólidos sobre algumas das relações entre letras e fonemas. O que significa que é mais provável que as crianças ensinadas por métodos fónicos possam fazer aprendizagens autónomas de novas relações entre fonemas-grafemas do que as crianças que são ensinadas por métodos globais. Para exemplificar, se a criança não conhece bem as relações entre grafemas simples e sons, pode ter dificuldade em atender às relações mais complexas entre ortografia e fonologia.


3. A ciência mostra

Existe um forte consenso científico sobre a eficiência dos métodos fónicos sistemáticos durante o período inicial do ensino da leitura e da escrita. A maioria dos estudos que utilizaram metodologias científicas robustas ao compararem métodos de ensino mostraram que os métodos fónicos sistemáticos capacitaram as crianças para fazerem progressos mais sólidos na leitura/escrita do que o ensino não sistemático ou do que o que não se baseava nos princípios fónicos.

O efeito potenciador dos métodos fónicos sistemáticos pode variar entre fazer uma pequena diferença e fazer uma diferença acentuada, dependendo das condições de aplicação (e.g., mais favorável quando usado desde cedo; mais favorável para crianças em desvantagem) e das modalidades alfabéticas em análise (e.g., decodificação, reconhecimento de palavras, escrita, compreensão).

Quando comparados com métodos fónicos não sistemáticos ou com métodos não fónicos, além de serem mais eficientes na aprendizagem da leitura (decodificação) e da escrita (codificação) de palavras, particularmente nos anos iniciais de aprendizagem, os métodos fónicos sistemáticos também mostraram ser vantajosos:

a) no reconhecimento de palavras e na compreensão da leitura; se as crianças decodificam melhor, têm mais probabilidades de reter mais facilmente diferentes padrões ortográficos, que passam a processar de forma mais automática; do mesmo modo, se decodificam melhor, também aumenta a sua capacidade para compreenderem o que está escrito;
b) no ensino de crianças provenientes de meios desfavorecidos. Embora se tenha verificado que os métodos fónicos são eficientes para todas as crianças, no caso de as crianças trazerem poucos conhecimentos quando iniciam a aprendizagem, os métodos fónicos são os que melhor as ajudam a adquirir em tempo útil as ferramentas básicas que lhes permitem lidar com o princípio alfabético;
c) no ensino de crianças em risco de insucesso ou com dificuldades de aprendizagem. A investigação tem mostrado que as crianças com este tipo de características têm limitações em reter informação verbal e em fazer inferências a partir das experiências de leitura/escrita que possam ter, o que restringe muito a possibilidade de fazerem aprendizagens que não sejam sistematicamente dirigidas. Por isso, o ensino explícito do princípio alfabético é crucial para adquirirem os mecanismos de decodificação/codificação.  

As evidências sobre as vantagens a longo prazo do método fónico são menos consistentes do que as que existem sobre os seus efeitos a curto prazo. No entanto, estudos que utilizaram metodologias sólidas mostraram que os benefícios são inequívocos para a escrita e, comparativamente com métodos não sistemáticos, mantêm uma forte vantagem até dois anos, e podem perdurar até cinco anos em crianças que iniciaram a aprendizagem em desvantagem, em testes de compreensão da leitura.

Comparações entre as duas versões dos métodos fónicos indicam que não existe evidência científica suficientemente clara para afirmar que o método fónico sintético é mais eficiente do que o método fónico analítico.  Se tomarmos em conta os princípios que regem as práticas de uma e de outra dessas duas versões, o método sintético parece incluir as condições que asseguram um melhor controlo da sistematicidade do ensino das relações fonema/grafema; mas a diferença de eficiência entre os métodos não foi verificada. É importante sublinhar, no entanto, que vários estudos convergem em provar que o ingrediente chave da eficiência dos métodos fónicos é o serem aplicados sistematicamente.

Autoria: Ana Paula Vale          Edição: Andreia Lobo


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Recomendações

Perguntas Frequentes

Usar apenas o método fónico sistemático é suficiente para ensinar a ler e escrever com fluência?

O método fónico sistemático é particularmente eficiente para as fases iniciais de aprendizagem da leitura e da escrita. Quando for necessário, o seu uso deve ser complementado com estratégias de ensino apropriadas ao desenvolvimento da fluência e da compreensão da leitura.

Em estudos realizados com ortografias inconsistentes, como a inglesa, tem vindo a tornar-se mais forte a perspetiva de que poderá haver vantagens em associar, de forma bem planeada, o uso de um método fónico sistemático com o do ensino global pontual para palavras excecionais frequentes. Há, no entanto, que colocar esta informação em perspetiva: nenhum estudo cientificamente sólido mostrou como gerir de forma eficiente esta proposta que, se não for sustentada por conhecimentos aprofundados sobre como funciona o sistema de escrita a ensinar/aprender, pode tornar-se uma forma de fazer “um bocadinho de tudo”, criando-se um risco sério de perder a dimensão do ensino sistemático que dá aos métodos fónicos a sua vantagem.

O livro de leitura adotado na minha escola apresenta uma sequência de ensino que não respeita os princípios apontados para a aplicação do método fónico sistemático. O que devo fazer?

A sequência de letras/grafemas que é apresentada num determinado livro de leitura não obriga a que essa sequência seja a que vai ser adotada. No entanto, como os professores planeiam o ensino numa escola ou agrupamento normalmente em grupo, seria adequado discutir os princípios em que se baseia a sequência de ensino sustentada pela investigação e, em conjunto, planear uma sequência cientificamente apropriada que seja depois usada pelo grupo.

Se o ensino da leitura for realizado através de um método fónico sistemático, é necessário ensinar como se escrevem as palavras? As crianças não aprendem a escrever a partir da leitura?

A investigação mostra que uma parte considerável da aprendizagem da escrita pode ocorrer através da leitura. No entanto, o modo como os sons são representados pela escrita (as relações entre fonemas-grafemas) é geralmente mais complexo e variável do que o modo como as letras são convertidas em sons (as relações grafemas-fonemas). Por isso, aprender a escrever palavras apenas através da leitura torna-se uma limitação.

Quando as pessoas leem, tipicamente prestam atenção aos significados e muitas vezes, particularmente no princípio da aprendizagem, conseguem identificar palavras mesmo não prestando atenção a todos os grafemas que as constituem. Isto acontece mais frequentemente com as crianças que são mais lentas a aprender a escrever. O ensino explícito da escrita é fundamental porque dirige a atenção das crianças para todos os pares som-letra(s) necessários à escrita ortograficamente correta de uma palavra.

LEITURAS SUGERIDAS

Kolinsky, Morais, Cohen & Dehaene (2018). Les bases neurales de l’apprentissage de la lecture. Langue Française, 199, 17-33.

Kolinsky, R., Leite, I., Carvalho, C., Franco, A., & Morais, J. (2018). Completely illiterate adults can learn to decode in 3 months. Reading and Writing, 31(3), 649–677. Doi: 10.1007/ s11145-017-9804-7

Morais, J. (2018). The methods issue revisited: From a developmental and a socio-cultural-political perspective. In T. Lachmann & T. Weis (Eds.), Reading and Dyslexia: From Basic Functions to Higher Order Cognition, pp. 9-25. Berlin, Springer.

Torgerson, C., Brooks, G., Gascoine, L., & Higgins, S. (2018). Phonics: reading policy and the evidence of effectiveness from a systematic ‘tertiary’ review. Research Papers in Education, 1-31. Doi: 10.1080/02671522.2017.1420816.

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