Preparar A Ciência Mostra

Desenvolvimento linguístico e preparação para a leitura e a escrita

A aprendizagem da leitura/escrita implica a aprendizagem de um sistema de signos gráficos que representam a fala e o desenvolvimento de conhecimentos e habilidades que possibilitem a compreensão do que se lê e a capacidade de expressão através da escrita. Por isso, o sucesso nesta aprendizagem é influenciado pela condição em que cada criança se encontra quando inicia a escolaridade, em particular pelo seu desenvolvimento linguístico e pelo contacto prévio que teve com a escrita.

1. Desenvolvimento linguístico e preparação para a aprendizagem da leitura e escrita

Para a maioria das crianças, a aquisição da linguagem ocorre de forma “natural”, por imersão numa comunidade linguística, seguindo um padrão de desenvolvimento relativamente semelhante. 

Começam por balbuciar, apontar e seguir atentamente o que veem e ouvem. Depois surgem as primeiras palavras, utilizadas na nomeação de pessoas e objetos que, a pouco e pouco, as crianças aprendem a juntar. Primeiro produzem frases simples, depois frases mais complexas que progressivamente se aproximam das da linguagem do adulto. A simplicidade está apenas nesta descrição sumária. 

A aquisição da linguagem é complexa e morosa! Envolve o domínio (percetivo e articulatório) da fonologia da língua, a associação de significados/conceitos a palavras e implica o progressivo domínio de regras de combinação e alteração das próprias palavras para compreender e expressar significados relacionais mais complexos. São conhecimentos implícitos, isto é, não conscientes, extraídos da língua a que a criança está exposta, e de que a criança faz uso na interação linguística. 

De um modo geral, no momento em que se inicia a aprendizagem da leitura e da escrita, a linguagem de base está adquirida. Mas já nesta altura as crianças possuem competências linguísticas muito diferentes. Diferem no conhecimento do léxico ou, utilizando uma expressão mais corrente mas com um significado mais restrito, no vocabulário que conhecem. Diferem no entendimento e na capacidade de elaboração de frases, na compreensão oral, na facilidade com que elaboram uma narrativa e na adequação do seu discurso ao interlocutor. Ou seja, o nível de proficiência alcançado em cada um dos domínios (fonologia, conhecimento lexical, conhecimento morfossintático e pragmático) – o desenvolvimento linguístico – é variável. 

São inúmeras e complexas as razões para essas diferenças. Sabe-se, porém, que uma parte significativa desta variabilidade está relacionada com a riqueza da linguagem a que a criança está exposta, como explicado de forma clara neste vídeo.



Center on the Developing Child at Harvard University (2020, July).
Serve and return interaction shapes brain circuitry. http://developingchild.harvard.edu


Esta é a razão pela qual as crianças que vivem em contextos mais desfavorecidos tendem a ter competências linguísticas menos desenvolvidas e por, nestes contextos, se encontrar uma maior percentagem de crianças com atrasos ou dificuldades da linguagem.  A riqueza da linguagem a que a criança está exposta é ainda a razão que explica o efeito de uma educação de infância de elevada qualidade. Ela é eficaz na promoção do desenvolvimento linguístico e é até capaz de anular ou esbater os atrasos linguísticos registados por algumas crianças, em particular, daquelas que vivem em contextos socioculturais mais adversos.

O contacto que as crianças têm com a linguagem escrita é também bastante diversificado. Encontram-se diferenças consideráveis entre as crianças em idade pré-escolar nos conhecimentos e competências que facilitam a aprendizagem do sistema de representação alfabético, entre os quais o conhecimento das letras e a habilidade para dirigir a atenção para a estrutura fonológica da fala.


2. A importância do desenvolvimento linguístico e da preparação para a aprendizagem da leitura e escrita

A relevância do desenvolvimento linguístico e do contacto prévio com a linguagem escrita compreende-se facilmente se tivermos presente o que hoje sabemos serem os principais mecanismos envolvidos na leitura e na escrita. 

A leitura e a escrita envolvem essencialmente dois componentes: 

    a) o mapeamento/correspondência entre o que está escrito e a respetiva pronúncia (decodificação, na leitura; codificação, na escrita);
    b) a compreensão e a expressão oral

Daqui se depreende que o domínio dos “sons” da língua (quer a nível percetivo, quer a nível da produção, dicção), a noção de que a escrita “representa” a fala, a capacidade para dirigir a atenção para a estrutura fonológica da fala, o conhecimento das letras e do que elas representam são aspetos facilitadores da aprendizagem do código e dos mecanismos de decodificação, na leitura, e de codificação, na escrita (ver também Consciência fonológica, relação entre linguagem oral e escrita e Convenções do sistema de escrita, conhecimento das letras e grafia).

A partir do que foi dito, percebe-se também a importância dos principais elementos que contribuem para a compreensão e expressão orais, o conhecimento lexical e o conhecimento gramatical ou morfossintático (ver também Conhecimento lexical e Conhecimento morfológico e sintático).

O efeito das habilidades linguísticas na compreensão da leitura e na escrita pode ser pouco percetível nas etapas iniciais da aprendizagem, quando a atenção e o esforço mental ainda estão concentrados na identificação e escrita das palavras. No entanto, torna-se cada vez mais evidente à medida que estes processos se automatizam e o aluno fica liberto para dirigir a atenção para a extração de sentido ou do que pretende expressar.

As Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, publicadas pelo Ministério da Educação de Portugal, refletem já o reconhecimento da relevância do desenvolvimento linguístico e do contacto com a escrita nos anos que antecedem a aprendizagem formal. Por isso lhe dedicam uma atenção especial e incitam à sua promoção.


3. A ciência mostra

Sobretudo nos anos que antecedem a escolaridade a variabilidade no desenvolvimento linguístico é acentuada e reflete o efeito de diferentes fatores. 

Alguns atrasos têm uma componente hereditária, outros são explicados pelo que a criança consegue ouvir, isto é, por défices da capacidade auditiva, enquanto outros resultam maioritariamente de carências socioculturais que se refletem no input linguístico e nas vivências da criança. Por si só, nenhum destes fatores determina o desenvolvimento da linguagem ou permite prever eventuais dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita. Ou seja, nenhuma criança está, à partida, condenada! 

O risco de dificuldades na aprendizagem da leitura e da escrita eleva-se quando diferentes adversidades se conjugam e a criança não tem acesso a educação de infância de qualidade ou a outras medidas de apoio que permitam contrariá-las. Por esta razão, é importante estimular e expor a criança o mais cedo possível a um ambiente linguístico rico, estar atento à evolução das suas competências linguísticas e, se necessário, desenvolver com ela um trabalho mais intensivo e sistemático.

Os estudos científicos nesta área mostram que a intervenção sistemática ao nível da linguagem – e que passa pelo ensino explícito de vocabulário, pela organização de narrativas, pela audição da leitura de histórias… – tem, em geral, um efeito positivo considerável. Esta evolução é particularmente significativa quando “ouvir” e “falar” são trabalhados de forma integrada. Não basta à criança “ouvir”. A linguagem desenvolve-se sobretudo no contexto de interações verbais. 

Para preparar a aprendizagem do código e dos mecanismos envolvidos na leitura e na escrita, têm de existir atividades em que pais ou educadores se focam na linguagem escrita, na sua relação com a linguagem oral, e ensinam os conhecimentos e as habilidades necessários (consciência fonológica e conhecimento das letras). 

A relação entre o desenvolvimento linguístico e os conhecimentos sobre o impresso e o sucesso na aprendizagem da leitura e da escrita é clara. As crianças que, em idade pré-escolar, têm um vocabulário mais desenvolvido, uma maior facilidade de compreensão da linguagem oral e que conseguem produzir frases mais elaboradas revelam, mais tarde, uma maior facilidade de compreensão da leitura. Estas crianças enfrentam de forma menos custosa os desafios colocados pela crescente complexidade dos textos com que serão confrontadas. Por seu turno, as crianças que possuem conhecimentos alargados sobre o funcionamento da língua escrita têm mais facilidade nas etapas iniciais da aprendizagem quer da leitura, quer da escrita.

Autoria: Isabel Leite          Edição: Andreia Lobo

Recomendações

Perguntas Frequentes

Algumas das crianças da minha sala parecem estar atrasadas ou ter dificuldades em alguns aspetos da linguagem. O que devo fazer?

Como outras aprendizagens complexas que ocorrem ao longo do desenvolvimento, como o andar ou a coordenação motora, existe uma considerável variabilidade no ritmo e no padrão de desenvolvimento da linguagem.

Em caso de suspeita de um atraso ou dificuldade de linguagem, o educador deve, em primeiro lugar, procurar identificar o domínio em que a criança tem mais dificuldade (vocabulário pobre, compreensão, expressão…) e dirigir a sua ação para essa área. Por exemplo, se o vocabulário é pobre, pode insistir na leitura em voz alta, explicando o significado das palavras menos frequentes, e procurar situações para a aplicação dos novos vocábulos.

Se, ainda assim, o educador considerar que necessita da opinião de um especialista, ou se as dificuldades persistirem, deve encaminhar a criança para que se proceda a um despiste auditivo e a uma avaliação da linguagem por um especialista (terapeuta da fala ou psicólogo) e recolher informação relativa ao contexto sociofamiliar e às vivências da criança.

Algumas crianças da minha sala não falam português em casa. Será que isto não afeta o seu desenvolvimento da linguagem?

Não necessariamente. Durante algum tempo, pensou-se que a exposição a mais do que uma língua era prejudicial ao desenvolvimento linguístico. No entanto, a investigação mais recente neste domínio não o comprova e sugere até que ser bilingue tem algumas vantagens, quer para o desenvolvimento da linguagem, quer até para o próprio desenvolvimento cognitivo. O que importa assegurar, até se iniciar a aprendizagem formal da leitura e da escrita, é que a criança domina a língua em que vai aprender a ler e a escrever. Para a esmagadora maioria das crianças do nosso país, será o português.

LEITURAS SUGERIDAS

Costa, J. & Santos, A. L. (2003). A falar como os bebés. O desenvolvimento linguístico das crianças. Lisboa: Caminho.

Freitas, M. J. & Santos, A. L. (Ed.).(2017). Aquisição da língua materna e não materna. Questões gerais e dados do português. Berlin: Language Science Press.

Hjetland, H. N., Brinchmann, E. I., Scherer, R., & Melby-Lervåg, M. (2017). Preschool predictors of later reading comprehension ability: a systematic review. Campbell Systematic Reviews. DOI: 10.4073/csr.2017.14

Law, J., Charlton, J., Dockrell, J., Gascoigne, M., McKean, C., & Theakston, A. (2017). Early language Development: Needs, provision, and intervention for pre-school children from socio-economically disadvantaded backgrounds. A report for the Education Endowment Foundation.

Sénéchal, M., Whissell, J., & Bildfell, A. (2017). Starting from home: home literacy practices that make a difference. In Kate Cain, Donald L. Compton and Rauno K. Parrila (Eds.), Theories of reading development. Amsterdam: John Benjamins Publishing Company.

Sim-Sim, I. (1998). O desenvolvimento da linguagem. Lisboa: Universidade Aberta.

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