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Desenvolvimento linguístico

Conhecimento lexical

1. Promover o desenvolvimento lexical

Na aprendizagem de uma segunda língua é geralmente dada especial ênfase à aquisição do vocabulário. No entanto, quando os alunos estão a ser alfabetizados na sua língua materna este aspeto é, por vezes, descurado, assumindo-se que a expansão do repertório será uma consequência “natural” da aprendizagem. A expansão do repertório lexical das crianças deve ser alvo de especial atenção nas práticas pedagógicas de jardim de infância e nas de 1.º ciclo de ensino básico. Essa expansão depende tanto da quantidade como da qualidade do input linguístico.



Na estimulação do conhecimento lexical é necessário ter presentes alguns aspetos:

    1.  A aprendizagem de palavras novas ocorre, maioritariamente, por imersão, isto é, ouvindo essas mesmas palavras. Assim, é importante que as crianças ouçam várias vezes as mesmas palavras em diferentes contextos. De forma intuitiva, os adultos respondem a esta necessidade e procedem, de forma repetida, à nomeação de objetos, animais, pessoas, acontecimentos, etc., muito antes de o bebé ser capaz de produzir qualquer palavra;

    2. Uma mesma palavra pode ter diferentes significados, pelo que é necessário promover a flexibilidade linguística;

    3. Desde cedo, deve-se tornar a criança sensível à identificação de palavras cujo significado desconhece, estimulando a sua curiosidade em relação às mesmas. Deste modo, inicia-se um trabalho que constitui as bases para o desenvolvimento da metacompreensão, especificamente na identificação do que não é conhecido e que pode comprometer a compreensão do texto ouvido e lido.

Existem inúmeras estratégias que podem ser usadas para promover o desenvolvimento lexical nos anos pré-escolares:

    a) Nomear objetos, acontecimentos, ações, imagens, etc., pode ajudar as crianças, principalmente na fase inicial de aquisição da linguagem. À medida que a criança vai produzindo palavras, o adulto, além de continuar a nomear objetos, ações, sentimentos, etc., deverá também convidar a criança a nomear. Tal pode ser conseguido recorrendo à formulação sistemática de perguntas: O que é isto? Onde está? Este ciclo contribui para expandir o conhecimento lexical e estimula a curiosidade através do questionamento que é introduzido na interação adulto-criança; 

    b) Falar com a criança, dar-lhe oportunidade para falar, ouvir com atenção e valorizar o seu discurso e/ou as suas tentativas de comunicar;

    c) Expandir o discurso da criança. A título de exemplo, se a criança aponta para um cão deitado à sombra de uma árvore e diz “Olha o cão!”, o adulto pode expandir esta produção dizendo “Sim, é um cão. É muito bonito! Como está calor, ele escolheu uma sombra para dormir uma soneca!”;

    d) Fazer perguntas que não eliciem respostas do tipo sim/não ou que exijam apenas uma palavra como resposta. Por exemplo: “Já pensaste em tudo o que vais poder fazer na praia?” Se a criança responder apenas com uma ou duas palavras, como “Tomar banho.”, o adulto deverá expandir a sua resposta dizendo “Também podemos fazer castelos de areia, apanhar conchas, jogar à bola, fazer túneis na areia…”;

    e) Após a leitura de uma história, questionar as crianças sobre o significado de algumas palavras ou expressões, como nos exemplos abaixo:

          i) “A chuva ia ajudar as sementes a crescer e a produzir ótimos vegetais suculentos” (In O Nabo Gigante). O que quer dizer “ótimos”? E “suculentos”?;
          ii) “A mosca Fosca estava farta de zunir” (In A Casa da Mosca Fosca). “Zunir” é o nome da voz da mosca. Se fosse um gato, como teríamos de dizer? O gato estava farto de… (miar). E se fosse um lobo, como teríamos de dizer? O lobo estava farto de…(uivar).;

          iii) “Era redondo e castanho, assemelhava-se a um chouriço e, pior do que tudo, acertara-lhe em cheio na cabeça” (In A Toupeira que Queria Saber Quem lhe Fizera Aquilo na Cabeça). O que quer dizer “cheio”? E “em cheio”? – será que significa o mesmo?;
          iiii) […] com cara de segunda-feira” (In O Macaco de Rabo Cortado). Como será uma cara de segunda-feira?;

    f) Elaborar um baú/caixa/armazém/cofre de palavras, no qual são guardadas as palavras novas que forem sendo aprendidas. Em idade pré-escolar, as palavras serão escritas pelo adulto. Cada palavra nova aprendida é escrita num retângulo de papel e afixada num placar. A escrita pode ser acompanhada, ou não, de um desenho. No final da semana, o educador ou o professor – a estratégia pode ser estendida ao 1.º ciclo do ensino básico – seleciona algumas das palavras, solicita a recordação do seu significado (e, eventualmente, da história ou do contexto em que foi aprendida) e convida as crianças a construir frases com essas palavras. De forma lúdica e integrada, as palavras são várias vezes ditas, ouvidas e usadas. A par de uma observação “naturalista”, na qual o educador ou o professor constata se as crianças vão integrando no seu léxico novas palavras, esta atividade permite uma monitorização mais objetiva da aprendizagem de palavras novas, por exemplo, através de um registo. Quando o placar se encontrar cheio, as palavras podem ser arquivadas numa caixa, separadas em função da letra inicial (ordem alfabética) promovendo também o conhecimento de letras. 

Estes exemplos ilustram como se pode, em simultâneo, promover o alargamento do léxico e a flexibilidade linguística. 


2. Monitorizar o desenvolvimento do conhecimento lexical

A avaliação e a consequente monitorização do conhecimento lexical podem ser efetuadas através de provas estandardizadas e da análise do discurso. As provas estandardizadas são sempre uma amostra limitada do repertório lexical. Os seus resultados devem sempre ser lidos atendendo a esta limitação e tendo em conta a história desenvolvimental das crianças. Por sua vez, a análise do discurso é um procedimento com limitações, dado que diferentes contextos eliciam diferentes ilocuções.

A monitorização do conhecimento lexical é, por isso, geralmente efetuada através de uma observação “naturalista”, na qual o educador ou o professor constata se as crianças vão integrando no seu léxico novas palavras. Quando o educador ou o professor organizam atividades estruturadas para a promoção do léxico, a utilização de registos permite monitorizar a evolução das crianças.


Autoria: Fernanda Leopoldina Viana e Iolanda Ribeiro           Edição de texto: Andreia Lobo           Edição gráfica: Vera Antunes

Publicação: 22.setembro.2020

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